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Moda é arte, cultura ou negócio?

Foto do escritor: marcellogomesbooke
marcellogomesbooke
26 de set.
6 min de leitura

Moda é arte, cultura ou negócio?


Talvez essa seja uma pergunta que não precise de uma resposta imediata.

Talvez ela precise, antes de tudo, provocar uma reflexão.

Moda é arte, cultura ou negócio?

Talvez seja tudo isso.

E talvez o problema esteja justamente na necessidade de escolher apenas uma dessas possibilidades.

Recentemente, durante uma palestra sobre moda, ouvi uma reflexão que me fez pensar justamente sobre essa fronteira. Foi colocado que a moda é, sim, um processo criativo, mas que criatividade não significa necessariamente arte. Também foi defendida a ideia de que a moda, essencialmente, é um negócio.

Essa perspectiva merece ser respeitada. Afinal, a moda possui uma dimensão comercial inegável. Existe uma indústria, existem marcas, investimentos, profissionais, consumidores e uma enorme cadeia produtiva. Pessoas vivem da moda e empresas são construídas a partir dela.

Moda é negócio.

Mas será que precisa ser somente isso?

É verdade que nem todo processo criativo é uma obra de arte. Criamos uma campanha, desenvolvemos uma identidade visual, planejamos um desfile ou construímos uma estratégia de comunicação, e isso não significa automaticamente que estamos produzindo arte.

Mas o fato de algo ser um processo criativo impede que, em determinadas circunstâncias, também possa assumir uma dimensão artística?

A moda é ampla demais para caber em uma única definição.

Uma roupa produzida em larga escala para atender a uma tendência de mercado possui uma finalidade diferente de uma criação autoral apresentada em um desfile conceitual. Uma campanha publicitária possui objetivos diferentes de um editorial experimental. Um uniforme possui uma função diferente de um figurino criado para uma obra cinematográfica.

Tudo isso pode estar dentro do universo da moda.

Mas suas intenções, linguagens e contextos são diferentes.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente se “moda é arte”, mas em que momentos e de que maneiras a moda também pode se tornar uma forma de expressão artística.

Quando olhamos para a história da moda internacional, encontramos exemplos que tornam essa discussão ainda mais interessante.

Alexander McQueen transformou a passarela em espaço de narrativa, provocação e experimentação estética. Elsa Schiaparelli aproximou moda e surrealismo e estabeleceu diálogos com artistas como Salvador Dalí. John Galliano construiu desfiles marcados por personagens, teatralidade, narrativa e uma elaboração visual que ultrapassava a simples apresentação de roupas.

Não é necessário afirmar que toda a obra desses criadores seja arte para reconhecer que existe, em parte significativa de suas produções, um diálogo evidente entre moda, linguagem artística, performance e cultura.

E então volto o olhar para o Brasil.

Penso em Jum Nakao e em seu inesquecível “A Costura do Invisível”, apresentado em 2004.

As roupas de papel, a construção conceitual do desfile e a decisão de destruir as próprias peças ao final da apresentação transformaram aquele momento em algo que ultrapassava a simples apresentação comercial de uma coleção. O desfile tornou-se uma reflexão sobre efemeridade, consumo, aparência e sobre o próprio sentido da moda. Em 2024, duas décadas depois, a obra continuava sendo lembrada como um dos grandes momentos da história da moda brasileira.

Mas existe outro trabalho de Jum Nakao que me interessa ainda mais para essa reflexão porque aconteceu aqui, em Goiás.

Em 2024, o designer esteve à frente do Senac Fashion School como mentor de alunos de moda e participou de um processo que aproximou criação, educação, artesanato, sustentabilidade e cultura local.

Em Olhos D’Água, no interior de Goiás, alunos e artesãos trabalharam juntos na construção de Caelestis uma coleção e exposição que reuniu roupas conceituais e esculturas gigantes inspiradas nos signos do zodíaco, utilizando materiais naturais como bambu, palha de milho e fibras de bananeira.

O projeto contou com a colaboração de dezenas de artesãos da região e posteriormente foi apresentado como uma exposição de arte e moda. O próprio Senac descreveu a proposta como uma experiência artística baseada na valorização dos saberes tradicionais, do fazer manual e da inovação.

E o projeto chegou ainda às páginas da Vogue Brasil, que publicou um editorial de oito páginas dedicado à iniciativa.

Então volto à pergunta inicial.

Se moda é apenas negócio, onde colocamos uma experiência como essa?

Onde colocamos a ancestralidade do artesanato?

Onde colocamos o conhecimento transmitido entre gerações?

Onde colocamos o trabalho manual?

Onde colocamos a escultura, a performance, a narrativa, o conceito e a relação com a natureza?

E penso também em Martha Medeiros e na maneira como sua criação incorpora a renda artesanal produzida por comunidades nordestinas. Nesse caso, não estamos falando apenas de matéria-prima.

Estamos falando de conhecimento.

De tradição.

De memória.

De trabalho manual.

De identidade cultural.

De um saber que encontra na moda uma nova forma de expressão e também uma possibilidade de valorização econômica.

E então surge uma pergunta que considero legítima:

por que conseguimos reconhecer tão facilmente a dimensão artística e cultural de determinados criadores internacionais, mas muitas vezes enxergamos primeiro o produto, o preço e o negócio quando falamos de moda brasileira?

Não afirmo que exista uma resposta simples para isso.

Também não acredito que seja correto colocar todos esses criadores dentro de uma mesma definição.

Mas talvez devêssemos olhar com mais atenção para aquilo que produzimos aqui.

Porque quando uma criação brasileira transforma uma técnica artesanal em linguagem contemporânea, quando um desfile se transforma em performance, quando uma roupa passa a contar uma história ou quando um criador utiliza corpo, tecido, música, espaço e movimento para construir uma experiência, estamos diante de algo que merece, no mínimo, ser discutido também pelo olhar da cultura e da arte.

E existe ainda outra questão que considero importante: a ideia de que criação e dinheiro seriam caminhos incompatíveis.

Não deveriam ser.

Arte também é trabalho.

O artista precisa pagar suas contas. Precisa investir. Precisa estudar. Precisa produzir. Precisa negociar. Precisa estabelecer valores. Precisa construir mercado.

Querer viver da própria criação não torna ninguém menos artista.

Da mesma forma, transformar criatividade em negócio não significa necessariamente abandonar a expressão.

Um estilista pode ser empresário e criador.

Um fotógrafo pode ter linguagem autoral e viver de seus trabalhos.

Uma modelo pode ser profissional de uma campanha e, ao mesmo tempo, participar da construção de uma narrativa visual.

Um diretor de desfile pode trabalhar para uma marca e ainda assim construir uma experiência estética.

Criação e sustentabilidade não precisam ser inimigas.

Quem trabalha nos bastidores da moda sabe que um desfile não começa quando a primeira modelo entra na passarela.

Existe pesquisa.

Existe casting.

Existe direção.

Existe styling.

Existe música.

Existe iluminação.

Existe cenário.

Existe preparação.

Existe ensaio.

Existe narrativa.

Existe comunicação.

Existe uma intenção.

E, evidentemente, existe uma marca que precisa apresentar e vender seu produto.

Mas essas dimensões podem coexistir.

A passarela pode vender uma coleção e, ao mesmo tempo, construir uma experiência estética e cultural.

Pode apresentar um produto e criar uma narrativa.

Pode movimentar uma indústria e registrar um momento da sociedade.

Pode ser comercial e, dependendo da proposta, também assumir uma dimensão artística.

No Brasil, essa discussão ganha ainda mais importância.

Nossa moda carrega referências indígenas, africanas, europeias e de inúmeras outras culturas que ajudaram a construir nossa identidade.

Temos criadores, estilistas, modelos, fotógrafos, produtores, artesãos, profissionais de beleza e tantos outros trabalhadores que fazem da moda uma expressão da criatividade brasileira.

Reconhecer essa dimensão cultural não significa negar o mercado.

Muito pelo contrário.

Quando valorizamos a cultura, também valorizamos quem trabalha para mantê-la viva.

Quando valorizamos a criação, valorizamos o profissional que a produz.

Quando valorizamos a moda, reconhecemos uma cadeia inteira de pessoas que fazem dela uma profissão.

Ao longo da minha trajetória, primeiro como modelo e posteriormente nos bastidores, como booker, agente, diretor de casting, diretor de desfiles e gestor, aprendi que a moda nunca foi apenas aquilo que vemos na passarela.

Há muito mais por trás dela:

Existe gente.

Existe trabalho.

Existe criação.

Existe estratégia.

Existe cultura.

Existe mercado.

E, algumas vezes, existe arte. E com ela, a sensibilidade, a subjetividade de quem se dedica ela. A arte pertence ao cotidiano, tanto quanto à galerias e museus. Retira-lá desta esfera de circulação é privar pessoas do contato com o belo por uma visão tacanha e elitista sobre arte, cultura e … moda!

Talvez não precisemos decidir definitivamente em qual dessas categorias a moda deve permanecer.

Talvez seja mais interessante reconhecer que a moda pode transitar entre todas elas.

Nem toda moda é arte.

Mas isso não significa que a moda não possa ser arte.

Nem todo processo criativo é artístico.

Mas isso não significa que uma criação de moda não possa alcançar uma dimensão artística.

Moda é negócio.

Mas não precisa ser somente negócio.

A moda veste o corpo, mas também comunica ideias.

Movimenta negócios, mas também movimenta comportamentos.

Cria produtos, mas também cria memória.

Preserva saberes, mas também pode criar novas linguagens.

E quando consegue reunir essas dimensões, deixa de ser apenas aquilo que usamos.

Torna-se aquilo que comunicamos sobre nós mesmos e sobre o tempo em que vivemos.

Talvez, no final, a pergunta não seja simplesmente se moda é arte, cultura ou negócio.

Talvez a pergunta mais interessante seja:

por que precisamos escolher apenas uma dessas possibilidades?








Marcello Gomes

CEO — Modeling Group Management (MGM)

 
 
 

1 comentário


Carol Campos
Carol Campos
26 de set.

Uma reflexão necessária e muito bem colocada.

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