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O paradoxo da passarela: por que a moda mudou tudo para continuar a mesma

Foto do escritor: marcellogomesbooke
marcellogomesbooke
24 de ago.
2 min de leitura


Fazer a clássica pergunta sobre "o futuro da moda" já foi algo simples de responder. Hoje, antes de abrir a boca, preciso pensar três vezes. O mercado atual vive um paradoxo fascinante: ao mesmo tempo em que tudo mudou de forma drástica, no fundo, quase nada mudou.

Se olharmos para a superfície, as conquistas são inegáveis e bem-vindas. Uma das transformações mais bonitas de acompanhar é o início do fim do etarismo. A carreira de modelo, historicamente cruel com o avanço da idade, ganhou o direito à longevidade. Mulheres não têm mais "prazo de validade" carimbado aos 22 anos; a experiência e a maturidade conquistaram seu espaço na passarela.

Essa abertura de caminhos também trouxe a força das modelos plus size e, finalmente, o reconhecimento do espaço de direito das modelos negras. Um espaço conquistado por potência, talento e mérito, e não por cumprimento de "cotas" — um termo que sempre me causou profundo incômodo por reduzir a capacidade humana a uma mera métrica de inclusão.

No entanto, quando desfazemos o verniz do discurso moderno e olhamos para o núcleo duro da indústria, o high fashion permanece quase intocado. Na alta costura, o padrão visual ainda é o mesmo de décadas atrás: corpos altos, esguios e medidas rigorosamente estreitas. É um nicho fechado, e talvez sempre seja.

A grande virada do século XXI não foi a extinção desse padrão, mas a descentralização dele. Quem não se encaixa nas exigências milimétricas de Paris ou Milão já não está mais condenada ao anonimato. O mercado comercial global está faminto, gigante e altamente lucrativo. Há espaço para o real, para o carisma e para a diversidade.

Essa expansão, porém, trouxe uma névoa cinzenta: a confusa linha que hoje separa o que é ser uma modelo técnica e o que é ser uma influenciadora digital. Números de engajamento e contagem de seguidores passaram, muitas vezes, a atropelar o talento técnico de quem realmente domina o ofício da fotografia e do desfile.

Para quem olha para esse cenário complexo e ainda acalenta o sonho das passarelas internacionais, o diagnóstico é claro. O romantismo acabou, dando lugar à necessidade real de negócios. As oportunidades continuam surgindo a todo instante, mas a sorte só favorece quem está pronto. Em um mundo onde qualquer uma pode ter exposição, apenas a profissionalização e o preparo técnico garantem a permanência.

Marcello Gomes.


 
 
 

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